Em meio às barracas de frutas, ervas, imagens sacras e utensílios do cotidiano, nas feiras de Juazeiro do Norte, no Ceará, há um espaço cativo para um tipo especial de mercadoria: livretos finos, impressos em papel simples, com capas ilustradas por xilogravuras e recheados de versos que narram o mundo com humor, crítica, romance e religiosidade. É a literatura de cordel, expressão genuína da cultura popular nordestina que encontra em Juazeiro um de seus mais férteis terrenos.
Na terra do Padre Cícero, santo popular e figura central da religiosidade nordestina, o cordel não é apenas literatura — é oração, é crônica, é resistência.
Cordel: da tradição oral ao papel impresso
A literatura de cordel tem origem nas tradições orais da Europa, especialmente de Portugal e Espanha, onde trovadores cantavam histórias em feiras medievais. No Brasil, encontrou no Nordeste um terreno fértil para florescer, ganhando forma impressa no século XIX, inicialmente no Recife e, depois, em cidades do sertão.
Em Juazeiro do Norte, o cordel se estabeleceu como parte do imaginário popular, impulsionado pela forte cultura religiosa da região e pela circulação intensa de romeiros e feirantes. Era nas feiras livres, principalmente nas proximidades da Basílica de Nossa Senhora das Dores, que cordelistas e xilogravadores vendiam seus folhetos ao povo, muitas vezes declamando versos em voz alta para atrair compradores.
O cordel como espelho do povo
Os temas do cordel são tão diversos quanto a vida do sertanejo. Falam de amores impossíveis, milagres, causos engraçados, tragédias, heróis populares, aventuras fantásticas e críticas sociais afiadas. Não raro, surgem narrativas sobre o próprio Padre Cícero, os cangaceiros como Lampião, ou histórias educativas com moral cristã.
O cordel é, antes de tudo, uma forma de comunicação. Em uma região onde o acesso à educação formal foi, durante muito tempo, escasso, ele cumpriu (e ainda cumpre) um papel fundamental na transmissão de saberes, na formação de opinião e no exercício da imaginação.
Feiras e romarias: o cordel em movimento
Durante as grandes romarias de Juazeiro, que atraem centenas de milhares de fiéis anualmente, o cordel ganha ainda mais espaço. Cordelistas montam suas bancas nas ruas, declamam poemas ao lado de imagens de santos e vendem seus folhetos como parte do ritual da fé. É comum ver romeiros voltando para suas cidades com um punhado de cordéis nas mãos — ao lado de garrafinhas d’água benta e lembranças religiosas.
As feiras livres da cidade também são palcos fundamentais para essa circulação. Ali, o cordel encontra o povo e se atualiza: aborda temas contemporâneos, faz sátiras políticas, fala de tecnologia e redes sociais, mantendo viva sua essência de crônica do presente.
Xilogravura: arte que ilustra a palavra
Não se pode falar de cordel sem falar da xilogravura, técnica de impressão em madeira que ilustra as capas dos folhetos. Mestres xilogravadores como J. Borges, embora de Pernambuco, influenciaram artistas de Juazeiro e da região, que desenvolveram estilos próprios. A xilogravura é arte visual popular, forte e simbólica, que transforma cada cordel em um objeto estético e poético.
Cordel vivo, cordel futuro
Mesmo com o avanço da tecnologia e da internet, o cordel não perdeu espaço — apenas ganhou novas formas de circular. Hoje, há cordelistas publicando em redes sociais, produzindo vídeos com declamações, e até adaptando seus poemas para o teatro e o cinema.
Em Juazeiro do Norte, escolas, projetos culturais e coletivos têm promovido oficinas e rodas de leitura, despertando o interesse de crianças e jovens pela arte de rimar. E a feira, espaço de encontro popular, continua sendo o principal palco de exibição desse saber coletivo.
Juazeiro é terra de cordel
Em cada esquina de Juazeiro do Norte, entre rezas, promessas e feiras, há sempre um cordel esperando para ser lido, ouvido ou declamado. Ele é a voz do povo sertanejo em forma de poesia, é o retrato do Brasil profundo, é a prova de que cultura popular é, acima de tudo, permanência.







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