No sertão seco e pedregoso do Cariri Paraibano, onde a paisagem parece árida mas o povo é fértil de cultura, um som ancestral corta o ar: o som do pífano. Instrumento de sopro feito tradicionalmente de taboca ou madeira, o pífano é a alma de bandas que há séculos embalam a fé, a luta e o cotidiano das comunidades sertanejas.
Ali, em cidades como Sumé, Monteiro, Congo e Serra Branca, o som dos pífanos resiste como memória viva dos tempos em que a música era feita no terreiro, no terreiro da casa, nas procissões e nas festas de padroeiro. É uma expressão profundamente ligada à oralidade, à fé popular e à força da coletividade.
As Bandas Cabaçais do Cariri
As tradicionais Bandas Cabaçais, formadas por famílias inteiras, são o principal núcleo de preservação do pífano na região. O termo “cabaçal” vem das antigas formações militares ou religiosas compostas por pífanos e percussão — uma herança dos tempos coloniais, que se misturou com práticas indígenas e africanas.
Essas bandas são geralmente formadas por pífanos, zabumbas, caixas e taróis. Não há partitura: o saber é passado de pai pra filho, de tio pra sobrinho, de avô pra neto. É música ensinada no ouvido, no corpo e no tempo da convivência. Entre as mais conhecidas estão a Banda Cabaçal Santa Ana do Congo, a Banda Cabaçal Santo Antônio de Monteiro e a Banda de Pífanos Zé do Vito, em Sumé.
Entre o sagrado e o profano
O som do pífano no Cariri marca tanto as festas religiosas quanto as profanas. É trilha sonora das procissões, das novenas, das missas campais, mas também das feiras, das festas de vaquejada e das celebrações populares. Seu som é inconfundível — uma mistura de melancolia e força — que embala o povo em passos firmes e emocionados.
Durante a Festa de Nossa Senhora das Dores, por exemplo, em Monteiro, ou nas festas juninas do interior, o pífano assume papel central, anunciando a fé do povo e a alegria da vida em comunidade. É um som que evoca pertencimento.
Resistência frente à modernidade
Como tantas manifestações da cultura popular, o pífano enfrenta desafios para se manter vivo: a escassez de apoio, o envelhecimento dos mestres, a sedução dos sons urbanos nas novas gerações. Mas, apesar disso, ele resiste.
Nos últimos anos, tem havido um movimento de valorização e registro dessas bandas. Projetos de salvaguarda, festivais e iniciativas de educação têm ajudado a manter os pífanos em atividade — e, principalmente, a despertar o interesse dos jovens músicos para essa tradição.
O próprio instrumento tem passado por transformações: hoje, além da taboca, há pífanos feitos de PVC, que garantem maior durabilidade e afinamento. O som se atualiza, mas sem perder o vínculo com sua essência.
Pífano é pertencimento
Escutar o som de uma banda cabaçal no sertão da Paraíba é testemunhar um Brasil profundo, que pulsa no ritmo do vento, da terra e da fé. É cultura que não se dobra, que não se cala, que sopra resistência nos ouvidos de quem sabe escutar.
O pífano no Cariri Paraibano é mais do que instrumento: é identidade sonora, é herança coletiva, é sopro de vida. E enquanto houver gente soprando, haverá história sendo contada.







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