No coração do Sertão do Moxotó, em Pernambuco, a cidade de Arcoverde guarda uma joia rara da cultura popular nordestina: o Coco de Roda, expressão rítmica e ancestral que ecoa resistência, alegria e pertencimento. Mais do que música, o coco em Arcoverde é um grito de identidade que atravessa gerações, marcado por vozes fortes, pés no chão e mãos que batem no ganzá com a força da memória ancestral.
Uma história de raízes profundas
Arcoverde é conhecida por sua efervescência cultural, sendo palco de manifestações que vão do forró pé-de-serra ao teatro de rua. Mas é no Coco de Roda, especialmente com o grupo Coco Raízes de Arcoverde, que a cidade encontrou uma de suas expressões mais autênticas.
Criado na década de 1990 por Selma Brito, uma mulher negra e periférica, o grupo nasceu a partir da vivência de mulheres que se reuniam para cantar, dançar e compartilhar histórias. Inspirado nos cantos das lavadeiras e nas batidas dos terreiros, o grupo rapidamente se destacou pela potência da sua musicalidade e pela força de suas integrantes — mulheres simples, muitas analfabetas, que transformaram o corpo e a voz em instrumentos de luta.
Mulheres no comando do batuque
Diferente de muitas manifestações populares lideradas por homens, o Coco Raízes de Arcoverde é comandado por mulheres que carregam nos seus corpos a força do povo negro e sertanejo. Elas compõem, cantam, tocam e dançam com maestria. No batuque do coco, a ancestralidade se manifesta em forma de resistência feminina.
O ritmo é marcado pelo ganzá, caixa, triângulo, pandeiro e o tambor, com letras que falam de fé, amor, trabalho e política — sempre com uma pitada de crítica social e poesia. A dança é feita em roda, com passos firmes e cadenciados, em sintonia com a batida dos tambores.
Mais que folclore, cultura viva
Apesar de suas raízes antigas, o coco de Arcoverde não é passado congelado: ele se reinventa a cada apresentação. Grupos como o Raízes, o Trupé de Coco e o Coco Pisada Segura vêm experimentando novas sonoridades, colaborando com artistas contemporâneos e dialogando com outras linguagens, como o hip hop e a música eletrônica — tudo sem perder a essência.
Além dos palcos, o coco também ocupa as ruas, os terreiros, os quintais e os projetos sociais, mantendo viva a relação com o território e com a comunidade. É cultura viva, em constante movimento, moldada pela oralidade, pela coletividade e pelo amor ao chão que se pisa.
O coco como instrumento de transformação
O coco em Arcoverde é mais do que entretenimento: é uma ferramenta de educação popular, de autoestima e de fortalecimento das identidades locais. Em uma região marcada por desigualdades, o coco oferece espaço para o protagonismo de mulheres, jovens e crianças — transformando batuque em cidadania.
Coco é resistência
Quando os tambores começam a soar no sertão de Pernambuco, não é só música que se ouve. É a voz de um povo que, apesar das adversidades, nunca deixou de dançar, cantar e lutar. O Coco de Arcoverde é prova viva de que a cultura popular nordestina é pulsante, política e profundamente transformadora.







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