Corbiniano Lins, 100 anos: arte negra, popular e nordestina nas ruas do Recife

Corbiniano Lins, 100 anos: arte negra, popular e nordestina nas ruas do Recife

Por: Torvi Osmo

Em 2024, Pernambuco celebrou os 100 anos de nascimento de José Corbiniano Lins, artista negro, modernista, olindense — um dos nomes mais marcantes da arte pública brasileira. Seu legado é visível nas ruas do Recife e de tantas outras cidades do Nordeste, onde esculturas femininas de corpos longilíneos e painéis de azulejos ainda conversam com o cotidiano de quem passa. Sua obra, profundamente popular, é também um monumento à memória negra, à religiosidade afro-brasileira e à educação sensível feita a partir da arte.

Corbiniano foi parte da geração que rompeu com os moldes acadêmicos e lançou as bases da Arte Moderna no Recife, especialmente nos anos 1950. Participou do histórico Atelier Coletivo de Olinda, ao lado de artistas como Abelardo da Hora, Gilvan Samico, Reynaldo Fonseca, Lula Cardoso Ayres e outros nomes que buscavam uma arte nordestina, autêntica, carregada de identidade cultural. Mas enquanto muitos optaram por caminhos mais eruditos, Corbiniano mergulhou de cabeça na cultura popular — nas festas de rua, nos orixás, nas mulheres negras que moldaram sua infância e seu imaginário.

A figura feminina é central em sua obra. Não como objeto decorativo ou sensualizado, mas como símbolo de força, elegância e ancestralidade. Suas mulheres negras, de corpos longos e curvos, parecem andar pelas ruas com a mesma dignidade das divindades africanas. Muitas delas foram inspiradas em sua mãe, mulher trabalhadora, referência de luta e ternura. Ao retratar essas figuras em grandes formatos, no alumínio ou na cerâmica, Corbiniano inscreveu o corpo negro no espaço público como presença altiva e permanente.

Outro ponto marcante em sua trajetória é o uso de técnicas acessíveis. Ele produzia desde serigrafias até murais em azulejo e esculturas em alumínio, modelando inicialmente em isopor, com ferramentas simples e mãos firmes. Sua arte era feita para estar no mundo, não escondida em museus. Em vez de buscar o reconhecimento de uma elite cultural, ele criou para o povo — e com o povo.

Suas obras estão espalhadas por cidades como Recife, Maceió, Fortaleza e Campina Grande. Em Pernambuco, é possível encontrar seus painéis de azulejos contando as Revoluções Pernambucanas no centro do Recife, seus bustos de personagens históricos em bibliotecas públicas, ou mesmo o monumento ao mascate na Praça da Independência. Em Fortaleza, foi ele quem criou o Monumento ao Vaqueiro, e em Maceió, a famosa Sereia do Mirante. Em todos esses espaços, Corbiniano deixou a marca de uma arte que se faz educação visual — que ensina, que emociona, que permanece.

Mas o artista não se limitava às esculturas públicas. Sua série de serigrafias sobre Xangô e os orixás revela uma espiritualidade presente em seu trabalho. Ele entendia que arte e religiosidade, especialmente as de matriz africana, eram caminhos legítimos para a construção de conhecimento e memória. Corbiniano via o sagrado no cotidiano — e o cotidiano como lugar de beleza.

Em março de 2024, Recife deu a largada nas homenagens pelo seu centenário com a exposição “100 anos de Corbiniano Lins – A Festa!”, montada no RioMar Recife. A mostra reuniu cerca de 80 obras, entre pinturas, esculturas, gravuras e serigrafias. Além da beleza, o título carrega um símbolo poderoso: a festa como forma de homenagem e resistência. Como tantas manifestações populares que ele retratava, a exposição também era um ato de celebração do povo.

A mostra seguiu em 2025 para São Paulo, na Caixa Cultural, levando o nome e a obra do artista a novos públicos. Um reconhecimento merecido — e ainda insuficiente — para quem dedicou a vida à construção de uma arte verdadeiramente brasileira, negra e nordestina.

Corbiniano Lins não está presente apenas nos livros de arte ou nas paredes dos centros culturais. Ele vive nas calçadas da cidade, nos olhares das figuras femininas que ele moldou, nas cores de suas serigrafias, nas curvas do alumínio que desenhou com tanto afeto. Ele transformou o Recife e outras cidades em museus a céu aberto — onde a arte está onde o povo está.

Celebrar seus 100 anos é lembrar que a arte pode ser um gesto de memória. Que esculturas e murais não são só decoração, mas testemunhos vivos de uma história negra, periférica, nordestina. Corbiniano nos ensinou que é possível construir beleza com simplicidade, transformar espaço público em sala de aula, e fazer da arte uma forma de luta e permanência. Sua obra continua ali, firme, silenciosa, ensinando — e resistindo.

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