Por trás de cada roda de ciranda existe uma história de território, memória, resistência e pertencimento. Em Pernambuco, poucos nomes representam essa tradição com tanta força quanto Lia de Itamaracá, uma das maiores referências da cultura popular brasileira.
Nascida na Ilha de Itamaracá, no litoral pernambucano, Lia Maria da Silva ganhou o mundo com sua voz, seu jeito de cantar e sua relação profunda com a ciranda. Mais do que uma cantora, Lia se tornou símbolo de uma manifestação cultural que atravessa gerações e continua reunindo pessoas em torno de uma grande roda.
A ciranda como expressão de comunidade
A ciranda é uma manifestação tradicional da cultura popular pernambucana marcada pela formação de grandes rodas, nas quais os participantes dançam de mãos dadas enquanto acompanham as músicas. É uma cultura essencialmente coletiva: não existe espectador distante, porque todos podem entrar na roda.
Sua força está justamente nessa capacidade de reunir diferentes gerações e classes sociais em um mesmo espaço. A ciranda é festa, mas também é memória, convivência e construção comunitária.
Em um país marcado por desigualdades e pela tentativa constante de apagar manifestações das periferias e dos territórios populares, preservar a ciranda significa defender o direito de um povo contar sua própria história através da arte.
Lia de Itamaracá: patrimônio vivo
Lia transformou a ciranda em uma linguagem reconhecida muito além de Pernambuco. Com sua presença marcante e sua voz inconfundível, levou a cultura da Ilha de Itamaracá para palcos nacionais e internacionais, contribuindo para que a ciranda fosse reconhecida como uma expressão fundamental da identidade cultural pernambucana.
Sua trajetória também revela a importância das mulheres negras na construção e preservação da cultura popular brasileira. Durante décadas, Lia manteve viva uma tradição que nasceu e cresceu nos territórios populares, enfrentando os desafios de reconhecimento e valorização que historicamente atingem artistas da cultura popular.
Em 2023, Lia de Itamaracá recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco, reconhecimento que simboliza a dimensão de sua contribuição para a cultura e para a sociedade.
Uma cultura que continua em movimento
A ciranda não pertence apenas ao passado. Ela continua sendo construída diariamente por mestres, mestras, brincantes, músicos, grupos culturais e novas gerações que encontram nessa manifestação uma forma de expressar suas identidades.
É justamente aí que está a importância de Lia de Itamaracá: sua trajetória demonstra que tradição não significa ficar parado no tempo. Pelo contrário. Uma cultura permanece viva quando consegue dialogar com o presente sem perder suas raízes.
Valorizar a ciranda é valorizar os territórios onde ela nasceu, os mestres e mestras que dedicaram suas vidas à sua preservação e, principalmente, as comunidades que continuam colocando os pés no chão para formar a roda.
Quando a roda gira, a memória permanece
A ciranda ensina que cultura também é encontro. É quando pessoas diferentes dão as mãos, ocupam o mesmo espaço e compartilham uma mesma música.
Lia de Itamaracá representa essa força. Sua voz é parte da memória de Pernambuco e sua trajetória mostra que a cultura popular, quando reconhecida e valorizada, ultrapassa fronteiras sem deixar de pertencer ao território onde nasceu.
Enquanto houver alguém puxando uma ciranda e uma comunidade disposta a formar a roda, essa história continuará sendo contada.
Porque quando a roda gira, não gira apenas a dança: giram também a memória, a identidade e a resistência de um povo.





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