O Bembé do Mercado: 135 anos de resistência afro-brasileira em Santo Amaro (BA)

O Bembé do Mercado: 135 anos de resistência afro-brasileira em Santo Amaro (BA)

Em Santo Amaro da Purificação, cidade do Recôncavo Baiano marcada pela força das tradições afro-brasileiras, um rito centenário se reafirma ano após ano como um dos mais importantes símbolos da resistência do povo de terreiro: o Bembé do Mercado. Realizado há 135 anos, o Bembé é considerado a mais antiga celebração pública de culto aos orixás no Brasil — e, ao mesmo tempo, um grito de liberdade, fé e cultura.

História de resistência

A primeira edição do Bembé aconteceu em 1889, no mesmo ano da abolição formal da escravatura, como um ato de libertação espiritual e cultural. Liderado por mães e pais de santo, o evento nasceu como uma resposta à repressão religiosa sofrida pelos povos africanos e seus descendentes. Naquela época, cultos de matriz africana eram perseguidos e criminalizados, e reunir-se em louvor aos orixás era, por si só, um ato de coragem e afirmação.

Mesmo sob a vigilância policial, o Bembé resistiu. O terreiro se transformou em praça pública — a famosa Praça do Mercado — e ali, ao som dos atabaques, com danças, rezas, comidas sagradas e oferendas, se celebrou a ancestralidade em plena rua, diante de todos. A cerimônia se tornou tradição, atravessou os séculos e segue viva.

Fé, corpo e território

O Bembé é um exemplo vivo de como o sincretismo religioso moldou a cultura popular do Recôncavo Baiano. Durante os dias da festa, os terreiros da região saem em cortejo, acompanhados por fiéis, turistas, músicos e simpatizantes, e realizam cerimônias públicas de louvação aos orixás. É um momento em que o sagrado se encontra com o urbano, e onde a fé é expressa com o corpo em movimento, no toque dos tambores e no gingado das danças.

Além da dimensão religiosa, o Bembé se transforma também em um grande evento cultural. Apresentações musicais, rodas de capoeira, oficinas, feiras e mesas de debate são realizadas ao longo da programação, consolidando o evento como espaço de visibilidade e valorização da cultura negra.

Patrimônio e memória

Em 2019, o Bembé do Mercado foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN — um passo importante para o fortalecimento das políticas públicas voltadas à proteção das expressões culturais de matriz africana. O reconhecimento oficial, no entanto, não é maior do que o que já é sentido nas ruas de Santo Amaro, onde o povo sabe, desde sempre, que o Bembé é força, é raiz, é identidade.

Cultura viva

Celebrar o Bembé é celebrar a luta e a permanência dos saberes ancestrais em solo brasileiro. Em um país que ainda convive com o racismo estrutural e a intolerância religiosa, o Bembé do Mercado reafirma que a cultura é, acima de tudo, instrumento de resistência.

Ano após ano, Santo Amaro se torna palco de uma das mais importantes manifestações culturais e espirituais do Brasil. E ali, entre a fumaça do dendê, os tambores dos orixás e os corpos em transe, o Bembé nos lembra: o axé segue vivo.

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