Em 2025, o disco “Paêbirú: Caminho da Montanha do Sol” completa 50 anos de seu lançamento. Obra-prima da psicodelia brasileira e um dos álbuns mais cultuados da música nacional, ele reúne os artistas Lula Côrtes e Zé Ramalho em uma viagem sonora que mistura rock progressivo, ritmos nordestinos, poesia e misticismo. Mas a história desse disco vai muito além da música: envolve lendas antigas, desastres naturais e uma pedra misteriosa no interior da Paraíba.
Um disco, um mito
Gravado em 1974 e lançado em 1975 pelo selo Rosenblit, de Pernambuco, o álbum foi concebido como um mergulho espiritual e cultural nas raízes nordestinas. O nome Paêbirú vem do tupi e significa algo como “caminho do sol” ou “caminho das pedras”. A ideia central do disco gira em torno da Pedra do Ingá, um sítio arqueológico localizado no município de Ingá, na Paraíba, coberto por inscrições rupestres até hoje não totalmente decifradas.
Inspirados por essas inscrições e por mitos indígenas sobre um caminho sagrado que ligaria a América do Sul ao resto do mundo, Lula Côrtes e Zé Ramalho criaram um álbum dividido em quatro fases — Terra, Ar, Fogo e Água — cada uma representando um dos elementos da natureza. As faixas combinam instrumentos como viola, sitar, berimbau, saxofone e sintetizadores com cantos e recitações poéticas, criando uma atmosfera ritualística e psicodélica.
Raridade nascida de um desastre
Logo após o lançamento, um desastre natural mudou os rumos da história do disco. Uma enchente destruiu o estoque da fábrica da Rosenblit, e com ela, quase todas as cópias de Paêbirú. Estima-se que menos de mil unidades sobreviveram, o que fez do álbum um item de desejo entre colecionadores mundo afora.
Durante décadas, o disco circulou apenas entre apaixonados pela música experimental brasileira e estudiosos da psicodelia. Com o tempo, ele passou a ser considerado o LP mais raro do Brasil, chegando a ser vendido por milhares de reais em plataformas de colecionadores. Uma cópia original em bom estado pode ultrapassar R$ 10 mil, dependendo da edição.
Redescoberta e consagração
A redescoberta de Paêbirú a partir dos anos 2000 reacendeu o interesse pela obra. O disco foi relançado em CD e vinil por selos internacionais e ganhou reconhecimento da crítica especializada como uma das obras mais visionárias da música brasileira. Para muitos, ele antecipa experimentações que só viriam a ser feitas anos depois por artistas do manguebeat e da música alternativa.
Hoje, aos 50 anos, Paêbirú é mais do que um disco raro: é um símbolo da força criativa do Nordeste, um elo entre o passado ancestral e a vanguarda, entre a pedra e o delírio. Sua história, cercada de mistérios e reinvenções, permanece viva — como os sinais indecifráveis da Pedra do Ingá, à espera de novas leituras.







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